O mês de Agosto serve, entre outras coisas, para tentar pôr a leitura (inclusive Direito...) em dia: missão impossível...
No verão passado li toda a obra publicada de Tiago Rebelo, à excepção do penúltimo livro dele ("O Último Ano em Luanda"), que estou a acabar, e o último - "O Homem que sonhava ser Hitler" - e que vai seguir-se...
Ler Tiago Rebelo é como abrir um jornal diário e sofrer a fundo com as notícias que ali estão perante os nossos olhos - experimentem mergulhar no seu "O Tempo dos Amores Perfeitos" e este "O Último Ano..." e verão...
Deste "O Último Ano em Luanda" tenho o livro todo rabiscado, sublinhado, enfim... e sofro e revolto-me com os traidores do MFA, e poltrões como Mário Soares e Almeida Santos, que venderam o nosso Império, a nossa Nação pluricontinental aos soviéticos, aos cubanos...
Respigo, com a devida vénia, o seguinte trecho, o qual reflecte a realidade histórica que tem sido sonegada ao povo português, o qual, de resto, tem andado a dormir nos últimos trinta e seis anos...
“O tenente Macário tornou a sentar-se à frente de Nuno e continuou a conversar enquanto se ouvia o som surdo do vácuo, das granadas a serem cuspidas dos tubos dos morteiros - tum.,_ tum... tum…seguido das explosões ao longe.
- Há quatro anos que aturo esta merda - disse o militar, deixando escapar um suspiro ruidoso. - Houve alturas em que mal conseguíamos respirar. Era um arraial de porrada todos os dias. Os turras não nos davam um minuto de descanso. Isto? - Esticou o dedo a apontar para onde caíam os morteiros. - Esta merda? Isto não é nada - varreu o ar com um gesto de desprezo. - Você havia de estar cá quando os cabrões nos atacavam, aqui há quatro anos. Isso é que era a sério. Eles atacavam-nos, nós íamos atrás deles, dávamos cabo dos gajos e, no dia seguinte, já estavam de volta a bater-nos à porta. Era uma loucura. Por mais que os enchêssemos de chumbo, os gajos não aprendiam, voltavam sempre, uma vez, outra vez, e outra, e outra, e outra... - Abanou a cabeça, como se ainda lhe custasse a crer. - Incrível! Estes pretos parecem os chinocas do Vietname. O que me lixa é que tivemos treze anos desta merda, treze anos a darmos o couro por esta terra, a passarmos as passas do Algarve, a morrermos ou a ficarmos estropiados. Porra! Você não imagina a quantidade de gajos que eu vi saírem daqui completamente passados dos cornos, não diziam coisa com coisa. E para quê? Diga-me. Porque carga de água é que andámos treze anos a lutar? A resposta é simples: porque já cá estamos há cinco séculos. Que diabo, cinco séculos não são cinco dias!
Nuno abanou a cabeça, concordante, cinco séculos não eram cinco dias, de todo. Ao lado, ouviam-se os morteiros a disparar, tum... tum... tum.., e, ao fundo, as explosões. O tenente prosseguiu na sua diatribe, sem se interessar pelo desenrolar do combate.
- O que eu quero dizer é que, se nós estamos em África há quinhentos anos, como é que os pretos nos vêm dizer que isto é tudo deles? E alguns deles só falam francês, os cabrões da FNLA só sabem falar francês! Estamos a brincar? Nós - bateu com a palma da mão no peito - também temos pretos. Olhe, aqui - apontou para o lado. - Temos pretos a dar com um pau, a lutarem ao nosso lado. E eu não trocava um deles por dez desses merdosos do MFA que fizeram a revolução e que querem entregar Angola ao inimigo. Então estivemos nós anos, séculos!, a conquistar esta terra, a construir cidades, a tirar os selvagens da ignorância, e, de repente, vêm-nos dizer que somos uns sacanas de uns exploradores e que temos de largar esta merda toda e voltar para casa?. Agora que tínhamos a guerra ganha, entregamos o ouro ao bandido e vamos à vida?! Puta que os pariu a todos.
- De acordo disse Nuno, só porque achou que devia dizer qualquer coisa. - O que os portugueses fizeram por este país foi...
- A revolução, a democracia, está tudo muito bem - continuou o tenente, embalado na dissertação, ignorando-o.
Eu também concordo com a democracia, mas não é a democracia dos comunas, que querem oferecer Angola aos cabrões dos russos - disse. E a morteirada continuava numa cadência regular, tum... tum.., tum... - Ou você pensa que isto vai ser para os pretos? O tanas, é que vai. Uma terra a nadar em petróleo, rica em diamantes?! Não - abanou um indicador assertivo. - Nem pensar! Vai ser só troca por troca. Saem uns colonialistas, entram os outros. Somos nós a sair e os russos a entrar. -
Pôs-se de pé, agarrou as calças pela cintura, puxou-as para cima, a compor a farda. - Puta que os pariu - rosnou. Voltou-se para a direita, gritou: - Sargento! Já chega dessa merda!
Os morteiros cessaram e o silêncio impôs-se.”
(são nossas as letras a bold)
Tiago Rebelo, "O Último Ano em Luanda", Editorial Presença, fls. 177-178.
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