Dies Domini

Sartre escolheu o absurdo, o nada e eu escolhi o Mistério - Jean Guitton

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Localização: Lisboa, Reino Portugal Padroeira: Nª Srª Conceição, Portugal

Monárquico e Católico. intransigente defensor do papel interventor do Estado na sociedade. Adversário dos anticlericais saudosos da I República, e de "alternativos" defensores de teses “fracturantes”. Considera que é tempo, nesta terra de Santa Maria, de quebrar as amarras do ateísmo do positivismo e do cientismo substitutivo da Religião. Monárquico, pois não aliena a ninguém as suas convicções. Aliás, Portugal construiu a sua extraordinária História à sombra da Monarquia. Admira, sem complexos, a obra de fomento do Estado Novo. Lamenta a perda do Império, tal como ocorreu.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Amar não é pecado...


Por causa de uma "conversa" a várias vozes no "Blog" da Margarida, surgiu a ideia de como é bom "pecar à lareira" neste tempo já frio e quase invernoso.

Bem, amar não é pecado, "penso eu de que", como diria o Pinto da Costa. Aliás, o desamor é que é um grande pecado, a indiferença, a frieza, o distanciamento.

Aqui fica uma ideia da paixão à lareira...
(o teor deste "blog" impede-me de colocar uma imagem mais explícita...).


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domingo, 21 de novembro de 2010

Solenidade de Cristo-Rei.


Neste Domingo celebra-se a Solenidade de JESUS CRISTO, REI DO UNIVERSO. Ora, a celebração desta Solenidade encerra o Ano Litúrgico em curso. Próximo está o Advento…ou seja, um novo Ano Litúrgico, que começa precisamente 4 Domingos antes do dia de Natal.

A festa deste Domingo celebra Jesus como sendo o (nosso) Rei, o Único que guia a Sua Igreja aqui na Terra e, como Pastor, guia as Suas ovelhas, reconduzindo ao Seu redil aquelas que estavam perdidas…

Somente o doce Jesus é definitivo e absoluto. Ao proclamá-lo Rei afirmamos que não nos submetemos a nenhum poder terreno, necessariamente corrompido. A situação política do nosso País aí está para o comprovar…


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sábado, 20 de novembro de 2010

Da Mulher: a diferença entre estar calçada ou descalça...


"Uma mulher calçada é uma mulher vestida. Uma mulher bem calçada é uma mulher bem vestida. Talvez por isso, uma mulher descalça é já uma mulher nua."

Marcello Duarte Mathias, no seu novo livro, "Brevíssimo Inventário", editado pela D. Quixote.


Nada mal observado, para um diplomata...
Nota: na foto, Monica Bellucci. Da qual a Margarida é fã...

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quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Na Memória de Santa Isabel da Hungria


Na memória da Santa Isabel da Hungria, que a Igreja celebrou neste dia 17 de Novembro, em Sua honra aqui publico um texto (esquecido...) que serviu de base a uma alocução minha no Externato Franciscano da Luz, aqui em Lisboa.

Ei-lo:

" CONSCIÊNCIA E JUSTIÇA.

NA MEMÓRIA DE SANTA ISABEL DA HUNGRIA.


Ao reflectir na celebração da memória de Santa Isabel da Hungria, que a Igreja e, em particular, a Ordem Franciscana Secular, (que a tem como Padroeira), fizeram no passado dia 17 de Novembro, no 8º Centenário do seu nascimento, ocorreram-me as palavras de um livro que me acompanha há já longos anos, de um pensador português, de seu nome Alberto Ferreira, denominado “Real e Realidade” e que começa com a seguinte interrogação:

“Quem há, hoje, que escute o filósofo? Quem há aí que espere a salvação pela filosofia?”

Parece-me que o autor quereria até dizer quem há aí que procure a verdade tranquilizadora pela via da filosofia?

Diríamos assim também nós, em paralelo, quem aí está que procura a Verdade através do Religioso?
Desde já, procuramos nós que aqui estamos, a Verdade, através da atitude religiosa.

A religião, como disse Gustav Radbruch “ é a afirmação suprema do ser, de tudo aquilo que é; um risonho positivismo que conduz a proferir um «sim» e um «ámen» a respeito de todas as coisas que existem; é um amor que se desinteressa do valor ou desvalor do objecto amado; é uma tranquila beatitude para além da ventura e da desventura; uma graça ou perdão para além da culpa ou da inocência; uma paz situada mais acima da razão e dos seus problemas, aquela «alegre candura metafísica» (Scheler) dos filhos de Deus (…)” .

Recordem-se as palavras do Génesis: “ (...) Deus, vendo toda a Sua obra, considerou-a muito boa (…) .
Nós, todos nós que aqui estamos hoje reunidos, na casa dos nossos Irmãos da Ordem dos Frades Menores, e à Sombra tutelar de Santa Isabel da Hungria, somos o produto da Sua obra, porventura algo adulterada pelas nossas próprias mãos mas, mesmo assim, continuamos a pertencer-Lhe.

Esta nossa reunião é, já por si, um acto que classificaria de litúrgico, se me é permitida a expressão.


Todos nós somos filósofos.

Quando estamos a dialogar com Deus, expondo os nossos anseios, as nossas angústias, as nossas dúvidas, estamos a filosofar sem que nos apercebamos.

Ao lermos as Sagradas Escrituras, estamos a fazer um esforço de interpretação das mesmas, estamos a tentar descobrir a chave que nos abra a porta do imenso tesouro que está contido na Palavra de Deus e, claro, estamos aí no domínio da filosofia, embora esta iluminada pela Luz Divina (não somos como um intelectual francês que afirmou ter lido num serão todos os Evangelhos, pois que os mesmos eram tão simples que rapidamente se chegava ao fim… presunção e água benta certamente… melhor diria uma total incompreensão para descobrir o Maravilho e o profundo Mistério da Palavra de Deus aí revelada.

Não esqueçamos que existe o filosofar ateu, que rejeita a própria ideia de Deus.

Lembremo-nos de Sartre, que escolheu, na bela frase de Jean Guitton (aquele a quem um agnóstico como Mitterrand, visitava e gostava de ouvir, tentando perceber e penetrar esse mesmo Mistério), dizíamos que escolheu o absurdo” ; mas nós optámos pelo Mistério, não é verdade meus Irmãos?

Irmãos que estão aqui reunidos com vista a participar na memória dessa Santa, contemporânea de São Francisco, e que conheceu a face mais obscura dos Homens, a sua ingratidão, o desprezo, a indiferença, a mesquinhez.

Não são de hoje, meus irmãos, estes sentimentos negativos que, tomando conta do coração dos Homens, desfiguram a Beleza que Deus criou neste mundo, para nosso encanto e deleite.

Creio bem que (e que me perdoem os nossos Irmãos da Ordem dos Frades Menores por eventual desvio dogmático, embora involuntário), inicialmente, o Paraíso não era essa terra prometida, algo distante e nebulosa: não, o Paraíso era esta terra muito concreta, que nós pisamos com os nossos pés, hoje tão cansados de peregrinar, tantas vezes sem um norte à vista.

Mas peregrinação essa que queremos que, de algum modo, nos leve à Casa do Pai celeste.

E esse caminho faz-se com a inefável ajuda daqueles que viveram e morreram na amizade de Deus.

Reparem como é bela esta expressão: “morrer na amizade de Deus”!

Creio que é o desejo mais íntimo de cada um de nós aqui presente: morrer na amizade de Jesus e de Sua Mãe, Maria Santíssima!

É todo um itinerário de vida!

Assim, visto deste prisma, o fim da nossa vida despe-se de contornos dramáticos e assume antes a suave Luz de Jesus, fonte da nossa esperança. Apesar de termos consciência de que viver custa, é algo que não é fácil, e que a dor e a morte não podem ser colocadas entre parêntesis.

Como superar então as vicissitudes do nosso quotidiano?

Temos consciência, meus irmãos, de que pensar sobre estes temas nos deve levar a crescer e a rejeitar um gesto meramente contemplativo?
E a actuar na nossa sociedade com os talentos que Deus nos deu?

Sinto que é uma grande responsabilidade para todos nós, tal como resulta da parábola dos talentos, fazermos render os dons que Deus nos deu.

Temos que modificar a nossa sociedade, actuar nela de molde a que a nossa Fé, a nosso “filosofia de vida”, o nosso sentido de Justiça, sejam entendidas e influenciem o curso da História, o destino desta nossa Nação que já foi grande, e que hoje necessita de um novo rumo, rumo esse que não pode deixar de ser aquele que conduzirá à Verdade do Evangelho.

Mas é extraordinário que, nestes dias de chumbo nos quais é de “bom tom” revelar um certo gesto agnóstico ou mesmo ateu, e mostrar uma mente anticlerical, tal como sucedeu na 1ª República (a História em Portugal repete-se, diríamos mesmo que ela é recorrente naquilo que tem de negativo) é extraordinário, dizia, que ainda haja um grupo de homens e mulheres de boa vontade, que se reúnem para meditar nas virtudes daqueles que seguiram, sem vacilar, as pisadas do nosso Salvador, Jesus.

Apesar das injustiças. Apesar de toda a violência. Apesar da má-vontade dos homens, a inveja, a sede de vingança, o grito de guerra sempre presente nas bocas dos homens.

Com efeito, a nossa História colectiva, as mais das vezes pessoal, é um somatório de desvios ao Bem e aos insistentes pedidos de Jesus para a nossa conversão.

Dessas pulsões antagónicas, entre o desejo de fazer o Bem e a queda muitas vezes involuntária (ou até dramaticamente voluntária) no Mal, resultam desequilíbrios que conduzem ao império da injustiça.

Como discípulos de Cristo que somos, temos consciência da nossa própria fragilidade. Por isso, colocamos toda a nossa confiança na Graça de Deus e, como disse algures João Paulo II, pretendemos acima de tudo, caminhar sobre as pegadas de Jesus.

E será que temos consciência desse império da injustiça, que teve o seu vértice mais alto há dois mil anos quando crucificaram o Filho de Deus, mas que está igualmente presente nos dias de hoje, através de pequenos gestos do quotidiano, onde podemos revelar toda a verdade assimilada pela leitura do Evangelho, ou exteriorizar todos os vícios adquiridos nesta sociedade julgada auto-suficiente, onde a ideia de Deus está cada vez mais distante?

A injustiça praticada sobre o nosso semelhante, por vezes travestida de Justiça, tem sido inúmeras vezes objecto de duras críticas por parte da Igreja.

Recordemos neste sentido as palavras do sempre saudoso João Paulo II, o qual, na sua obra “ A Igreja e a Verdade”, e referindo-se ao fenómeno do esclavagismo, realçou o quanto é difícil “ (…) esquecer os enormes sofrimentos infligidos, desprezando os direitos humanos mais elementares, às populações deportadas do continente africano? (...); É necessário que se confesse em toda a verdade e humildemente este pecado do homem contra o homem (...)”.

Isto é um mero exemplo do que o Homem é capaz de fazer ao seu semelhante. Disso deu provas o século XX: veja-se todo esse horror nazi que transformou a bela Europa em ruínas fumegantes, e a fez decair até aos nossos dias, dando ensejo a que uma nova potência dominasse o Mundo! Como Maria disse em Fátima, uma potência do Mal que espalharia a sua falsa doutrina pelo Mundo…

Esses crimes contra o ser humano não são um acidente da História.

Foram antes premeditados. No séc. XX, supostamente civilizado, foi uma realidade o extermínio de quase todos os judeus da Europa, ciganos, enfim, de todos aqueles que de algum modo fossem "diferentes", e a redução à escravatura de outros.

Passou-se aqui na (suposta) doce Europa, aquilo que, no fundo, o homem infligiu, durante séculos, aos índios da América e aos negros de África, sem que, por assim dizer, se desse por isso. Só que agora o crime foi perpetrado contra o homem branco...

Paralelamente ao curso do julgamento de Nuremberga, tranquilamente os "goulags" acumulavam-se na União Soviética e a segregação racial estava legalizada nos EUA.

É claro que na longa noite da História, do Egipto à China, da Grécia aos impérios mongol ou otomano, as práticas mais bárbaras tinham aplicação sem aparente sentimento de culpa.

O “outro” visto como inimigo era considerado um simples despojo Desumanizado, explorado, à mercê de todas as sevícias.

Paradoxalmente, nos nossos dias o Homem encontra-se menos livre (apesar de frequentemente não ter consciência disso), obrigado que está a um trabalho as mais das vezes desumano, as crianças obrigadas a fazer a guerra por esse mundo fora, meninas vendidas, mulheres do Leste e do Sul nas nossas cidades europeias procurando na prostituição o sustento, homens trabalhando clandestinamente sem quaisquer regalias sociais e sem segurança, sem o reconhecimento social do valor do seu trabalho, intimidados por novas "mafias" implacáveis.
E consideramos como bárbaro o nosso passado!

A propósito, lembro-me que se criou o mito de que a Idade Média foi uma era de obscuridade.

Puro engano! Veja-se o caso da nossa Nação, a qual deu “novos mundos ao mundo”: a própria expansão marítima tem as suas raízes na Idade Média.

Ora, é de salientar o pormenor que aqui nos interressa: uma das principais características da Idade Média é a sua intensa religiosidade.

O homem pós-moderno não compreende isto pois encara o fenómeno religioso como algo estranho à vida.

Para o homem medieval, pelo contrário, a esfera do sagrado estava sempre presente nas contingências da vida quotidiana. Congregados pelo irresistível apelo da religião, homens e mulheres de todas as regiões da Europa tinham a consciência de formar um povo único, o qual como que prefigurava a ordem celeste: a Cristandade

O sentido da transcendência direccionava o Crente da sua condição particular, para elevá-lo rumo a um ideal absoluto. Hoje, a Europa descristianizou-se e afastou-se da ideia de Deus, porque incómoda, porque desnecessária.


Mas, afinal, esse tempo produziu as mentes mais brilhantes de sempre, como, e a título de exemplo, o nosso Pai São Francisco, o grande Santo António – "Arca do Testamento" - Santa Clara, Santa Isabel da Hungria que hoje homenageamos, e às quais hoje o Homem sofredor, que tem consciência da sua finitude e insignificância, vai beber a água fresca e límpida da Verdade.

Vivemos num mundo paradoxal. Os valores, conceitos, os objectivos ditos democráticos que são defendidos parecem vazios, ocos, falsos. Não obstante, acredita o homem de hoje nos direitos do homem, Aliás, com a Revolução Francesa dar-se-á a "exportação" dos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade de um modo que até foi catastrófico: que o diga o nosso País que foi saqueado e vandalizado, nomeadamente na destruição e furto perpetrados nas nossas Igrejas pelos novos arautos ditos da liberdade…

Mas parece o homem de hoje acreditar no fim das tiranias. Há uma consciência mais forte do que poderá ser um crime contra a humanidade. O que confere um toque grotesco à morte inútil de seres humanos. Como aconteceu na II Guerra Mundial, onde as forças do Mal, aliás assim descritas por João Paulo II levaram à morte não necessária milhões de pessoas.

Ora, a morte não necessária é uma irrazão.
Facilmente depreendem os Irmãos que vista a morte desta maneira, assim configurada, não se trata da tal irmã morte de que fala São Francisco, mas sim estamos aqui em presença de uma verdadeira obscenidade.

Tem assim toda a propriedade a frase de um nosso escritor, Mário de Carvalho, o qual disse algures que há que tornar a morte obscena!


Mas quem nos norteia na senda da procura do sentido do “justo”?

Qual o verdadeiro sentido? Desde há dois mil anos que esta questão persegue a humanidade. “O que é a verdade”? interrogava-se Pilatos, frente a Jesus.

Este disse:” Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida”! (Evangelho segundo São João, 14,5).

A Verdade aqui identificada com fidelidade. A tomada de consciência de que existe um árido deserto fora do Evangelho.

Como exortou um ilustre Apóstolo, São Judas Tadeu, “Entregai-vos à oração no Espírito Santo, conservai-vos no amor de Deus”.

Fidelidade, pois, aos princípios por Ele enunciados. Verdade há dois mil anos.

Ontem como hoje.

O que é a verdade nos dias que correm? Num mundo laicizado, será a verdade proclamada pelos políticos?


É comum hoje dizer-se que vivemos num Estado de Direito.

Esta noção transformou-se, ao longo do tempo, no aferidor da democracia por esse Mundo fora.
Os organismos internacionais, como as Nações Unidas, União Europeia, o Banco Mundial, recorrem a ela para avaliar do "bom" ou "mau" comportamento dos países que porventura queiram ajuda ou integrar-se no grupo dos virtuosos...

Esta noção, que surge na Alemanha no fim do séc. XIX, permite o enquadramento jurídico do poder do Estado, e permite assentar a protecção dos direitos fundamentais e das liberdades com a sua inscrição nos textos constitucionais e nos tratados internacionais.

Mas esta noção não é inocente. A partir dos anos 80 do século XX tornou-se a figura central no debate político. É o sucessor do falecido Estado -Providência (bem, pelo menos muitos estão desejosos de lhe assinar a certidão de óbito...) e é o corolário da vitória do pensamento liberal, da filosofia liberal, que exalta o mercado como o novo deus da sociedade dita civil.

O conceito de Estado de Direito significa a submissão da política do Estado ao Direito e à Justiça.

Este princípio permite afastar o arbítrio político, mas o endeusamento da economia de mercado revela que este Estado de Direito que estamos a viver não tem nada a ver com a justiça social, com a repartição dos bens.

O cidadão é entregue, na sua amarga solidão, à auto-organização da sociedade, o mesmo é dizer, entregue à maior selvajaria financeira e social.

Com a mundialização, o Estado de Direito fica em condições de se tornar na única definição de democracia: traduz uma preocupação com as liberdades fundamentais, mas – atenção! que estas sirvam ao deus mercado!


O capitalismo financeiro-militar soube impor as condições para a sua expansão sem limites.

Para tal, exige que nada se oponha à lei mercantil. Nos locais onde o acesso aos recursos é vital para os novos predadores do mundo, o esmagamento dos direitos dos povos não passa de um acidente.

Tudo tem de ser sacrificado no altar do deus mercado. Este parece gostar de sacrificios para ficar apaziguado...


Tudo deve poder ser negociado.

O pensamento, a criação artística, o ambiente, a saúde, o nosso corpo. Ora, o único travão de que dispomos é constituído pelos princípios que expressam valores sociais, valores que são dotados de um estatuto jurídico superior às restantes normas jurídico mercantis.

E, claro, por muito que custe aos laicistas, os valores religiosos, nesta terra de Santa Maria, sempre foram uma luz que norteou a sociedade e, até – pasme-se! - alguma classe política… hoje seria impensável políticos da nossa praça assumirem-se como católicos praticantes e transpor para a prática governativa as grandes linhas orientadoras do Evangelho.

É que, na verdade, a preocupante situação vivida pela nossa sociedade, decorre das soluções políticas onde o Direito bem que poderá ser irrelevante e o conceito de Justiça postergado, banido como algo que estorva e incomoda.

A mundialização económica desenvolve-se sem que nenhuma instância política universal tenha força para afrontá-la. O Conselho de Segurança das Nações Unidas estabelece apenas uma mera relação de forças. É, pois, necessário, pensar na sobrevivência de um mundo que está em agonia.
Há que buscar uma filosofia que nos salve e que seja verdadeiramente universal.

A semente desta filosofia, a dos Direitos Humanos, a verdadeira Justiça, muitos ainda não atentaram que ela já foi plantada quando, na Galileia, Jesus de Nazaré a percorria, exortando os homens à fraternidade e ao amor.

O amor que hoje falta ao próximo, que não existe as mais das vezes nas nossas comunidades, que vê o outro como inimigo, como um obstáculo aos particulares fins que se pretendem atingir…


Todo aquele mundo de nostalgia e de fé, que foi a "Respublica Christiana, haveria de viver, no século XVIII uma crise de identidade. São as "Luzes" que chegam e veneram a Razão.

De qualquer modo, a Cristandade por ter modelado o Ocidente faz com que, apesar da sua erosão nos dias de hoje, actualmente as normas éticas, a atitude perante a vida e a morte, o trabalho, o papel da mulher, das crianças, sejam tributárias dessa herança.

Herança essa que nós, Franciscanos em particular, temos de preservar, para a podermos transmitir aos vindouros.

Como disse Samuel Huntington, na sua obra “O Choque das Civilizações e a mudança na ordem mundial”, a erosão do Cristianismo entre os ocidentais a longo prazo ameaçará a saúde da civilização ocidental. E parece-me que esta já está bastante doente.

Aliás, uma das críticas que os muçulmanos nos fazem a nós, ocidentais, é o facto de termos virado as costas a Deus. Não é por não acreditarmos em Maomé o Profeta: é tão só o nosso desleixo, a nossa indiferença, o nosso desprezo perante as coisas do espírito, o nosso ridículo apego ao materialismo.
Por vezes penso no pesadelo que é estarmos “carregados” de tantas coisas materiais que a maior parte das vezes só nos causam preocupações e não nos deixam espaço para reflectir na Palavra de Deus: é o carro que se quer substituir, é a casa que já não nos satisfaz, queremos uma maior, uma outra para férias, enfim… por aí fora… e ficarmos reféns de toda essa materialidade supérflua que as mais das vezes só nos trazem preocupações acrescidas…quando afinal a nossa vida terrena é tão breve e aqui neste mundo visível tudo deixamos…

Homenagem se faça a todos aqueles que abraçam a vida sacerdotal, de um modo activo ou mais contemplativo, e que são capazes de se despojar do supérfluo que sempre nos sufoca e tolhe as nossas melhores capacidades de generosidade e de doação ao outro.

É necessário que, à semelhança de São Francisco nos dispamos de tudo aquilo que impede a nossa Alma de voar até Deus.
É urgente que convoquemos para a nossa mesa a Poesia de Jesus e o perfume dos Seus Santos, sem gestos afectados mas também sem cerimónias...

Eles gostam que os convoquemos para o nosso seio, para o templo que é a casa de cada um de nós, pois que cada lar é (ou deverá ser) uma pequena Igreja doméstica onde recebemos o Amor de Deus e de onde devemos partir a fim de levar o Evangelho aos outros.

E há muitos caminhos que podem ser percorridos para o transmitir: pela palavra, pela escrita, pelo gesto, pelas obras traduzida na caridade para com o outro.

Nessa Igreja doméstica podemos falar com Deus em perfeita intimidade, quase que diria tu cá tu lá (recordo Santa Teresa de Ávila que falava com o Menino Jesus e, parece que às vezes até ralhava carinhosamente com Ele… tal era a Sua intimidade com Ele!
É assim, creio bem, que Deus quer que tratemos o Seu Filho, com familiaridade, com total entrega de nós próprios, pois bem sabemos que podemos confiar no Seu doce Coração cheio que está de Amor.

Ele é fiel, não é inconstante como o coração dos homens.

De facto, penso que deve ser esta a visão mais correcta que devemos ter da Fé: não um Deus terrível e castigador, mas sim um Deus do Amor, da Bondade, compreensivo perante as dificuldades inerentes ao nosso frágil barro… e que Ele vai modelando – se assim o quisermos (pois Ele nada impõe, apenas espera de nós um sinal positivo…) - numa espiral de perfeição…

Aliás, para mim, esta nossa vida terrena só faz sentido como um meio de contínuo aperfeiçoamento interior tendo em vista a entrada na Casa do Pai… Mas, no entretanto, deveremos praticar aquela máxima de São Francisco: “passar do Evangelho para a vida e da vida para o Evangelho”…

Recordo aqui um episódio que me aconteceu há cerca de um ano: tenho a paixão dos livros antigos, nomeadamente na área da minha especialidade, o Direito Administrativo, e gosto de passar pelos alfarrabistas em busca de alguma obra que me interesse; não conhecia nenhum ali para os lados da Lapa e, casualmente (ou não) ali tive de me deslocar quando, ao passar por uma rua estreita, deparei com uma velha loja com o nome de Alfarrabista Santo António! Já estão a ver que isto era premonitório…entrei e adquiri três livros que me interessaram. Mas, curioso, entrei numa sala muito pequena, escondida do público onde, pendurado na parede, se encontrava um velhíssimo quadro – creio que dos anos 30 – com uma lindíssima imagem do Sagrado Coração de Jesus, como hoje já não se faz. Perguntei, quase diria por “descargo de consciência”, se o quadro estava à venda; então, o velho alfarrabista não me disse que sim, que estava à venda? Fi-lo meu nesse mesmo instante, mandei restaurar a velha moldura e ei-lo que está bem colocado à entrada da minha casa: aí pontifica, pois Ele é bem vindo, e eu o convido todos os dias a permanecer na minha casa. Sem Ele que faria? Do que seria capaz de fazer? Nada, digo-o com toda a sinceridade: nada de nada!

Mas vêm como ali estava como que uma mensagem de Jesus? Para ali “esquecido”, estava à espera que alguém que muito O ama o fosse buscar… assim é Jesus, sempre à nossa espera, infinitamente paciente…

Mas, voltando ao nosso tema, ainda que o nosso mundo ocidental se tenha descristianizado, temos de ter consciência do papel importante, fundamental, que o Cristianismo teve na implementação de uma nova Justiça, na qual a dignidade da pessoa humana tomou um lugar central.

A Boa Nova, o Evangelho, reflecte a imensa oferta de Jesus Cristo a toda a Humanidade. A Sua oferta feita junto da Cruz demonstra que a nossa história é portadora dessa demanda do “homem novo” que não se confunde com aquele falso “homem novo” que as ideologias do Mal quiseram criar, um homem novo sem Deus, totalmente virado para a matéria e sem esperança.

Com a Palavra de Jesus o espaço e o tempo não ficaram como antes: Espaço aberto a toda a Humanidade, e Tempo que religa o homem a Deus a partir da Sua incarnação num Deus Menino, feito carne no ventre de Nossa Senhora.

Diria que todos os Crentes, e em especial nós, comprometidos que estamos com o carisma franciscano, temos de aprofundar a nossa consciência no sentido de centrarmos a Justiça no Amor. Aliás, dos escritos de um Ilustre franciscano, Santo António, depreendemos tal “tese”. A Moral ligada à Justiça, a Lei e o pecado, temas reflectidos por Santo Agostinho, que considerou o carácter diabólico do poder e a necessidade da Graça para redimir o pecado. É que Deus não quis que o homem fosse dominado pelo homem. Mas a necessidade de um poder coercitivo impôs-se pela entrada do pecado no Mundo, que seria o tal Paraíso, o Jardim do Éden que foi, afinal, contaminado pela inveja do Demónio.


Falámos na Moral ligada à Justiça. Vem a propósito a reflexão de João Paulo II acerca da Justiça, numa sua alocução, proferida no dia 1 de Janeiro de 2004 – Dia Mundial da paz. Segundo ele, esta, a Justiça, deve ser completada pela caridade, tema aliás caro aos franciscanos:

“O direito é certamente a primeira estrada a seguir para se chegar à paz; e os povos devem ser educados para o respeito do mesmo. Mas, não será possível chegar ao termo do caminho, se a justiça não for integrada pelo amor. Justiça e amor aparecem às vezes como forças antagonistas, quando, na verdade, não passam de duas faces duma mesma realidade, duas dimensões da existência humana que devem completar-se reciprocamente. É a experiência histórica que o confirma, mostrando como frequentemente a justiça não consegue libertar-se do rancor, do ódio e até da crueldade. A justiça, sozinha, não basta; e pode mesmo chegar a negar-se a si própria, se não se abrir àquela força mais profunda que é o amor”.

Mas, precisamente devido ao pecado original, o pensamento medieval relacionou o poder com o pecado. Todavia, Santo Agostinho sublinha que na própria ideia de Justiça radica o fundamento da conservação da sociedade.

Diz o Santo:

“Afastada a Justiça, que são, na verdade, os reinos senão quadrilhas de malfeitores? Que é que são, na verdade, as quadrilhas de ladrões, senão pequenos reinos?” (“A Cidade de Deus”).

Frei Álvaro Pais, nascido no Séc. XIII, Bispo de Silves e membro da Ordem dos Frades Menores, na sua obra “Espelho de Reis”, considera, na mesma linha, que “no princípio do mundo, olhando às pessoas que assumiram o domínio, este precedeu de corrupta intenção, a saber, da soberba e tirania”.

No fundo, reconduzimos a fonte de todos os males à expressão de São Paulo, o qual, na sua 1ª Carta a Timóteo, afirma que a raiz de todos os males é a ganância e o dinheiro (I, Tim. 6,10).

No fundo, é a cobiça que é sempre fonte de desgraças e da perda da paz interior.

Ora, todos estes desvios àquela sã natureza que deveria enformar o Homem dão origem, não à Justiça desejada, mas sim à injustiça.

Socorrendo-nos, mais uma vez, de Santo Agostinho, este considerou (e façamos nos dias que correm, um paralelo com os nosso políticos), que o Rei, antes de ser governante, é cristão, pelo que deverá submeter-se aos imperativos da moral e da ética cristã, não só ele mas também todos os homens, independentemente da natureza das funções exercidas. É, com efeito, na já referida obra “A Cidade de Deus”, que Santo Agostinho apresenta este modelo do bom príncipe cristão.

Seria hoje o bom Presidente ou o bom Primeiro-Ministro… dão-se alvíssaras a quem os encontrar…

Mas, de facto, estamos longe de uma sociedade fundada na virtude. Hoje como ontem. Veja-se Santa Isabel da Hungria que, apesar de ter distribuído a riqueza aos pobres do seu tempo, foi por estes escarnecida e desprezada quando, morto o marido nas cruzadas, foi expulsa pelos seus cunhados do castelo de Wartburgo. E ninguém a acolheu, apesar de se estar em pleno Inverno… a ingratidão parece ser a marca dos Homens…


Mas, como sabemos, apenas Deus é a medida do justo, e apenas d’Ele podemos esperar a verdadeira Justiça e Misericórdia.

Como disse Santo António, “As partes da Justiça são temer a Deus, venerar a religião, a piedade, a humanidade, o amor do equitativo e do bom, o ódio do mal, o empenho de prestar um favor. O mundo não possui esta Justiça, porque não teme a Deus, desonra a religião, odeia o bem, é ingrato para Deus”.

Compreende-se, pelas palavras do Santo, que Santa Isabel da Hungria tenha sofrido esse mal e essa ingratidão.

Seria interessante debruçar-nos então sobre a Justiça e a invocação de um Direito justo: como sabemos, o homem é, muitas vezes, o lobo do próprio homem.


O termo “Justiça” vem do étimo latino “justitia” e significa conformidade com o direito, dar a cada um o que por direito lhe pertence, praticar a equidade. Direito vem do étimo latino “directu” e significa o que é recto, probo e justo e, numa acepção mais restrita, o conjunto de disposições legais que regulam obrigatoriamente as relações dentro de uma determinada comunidade.

São assim conceitos estruturantes de uma ética de valores e de conduta.

Platão concebia a Justiça como harmonia. Aristóteles concebe a justiça como algo que devemos uns aos outros; Rousseau considera que a Justiça deve estar, antes de tudo, ao serviço da liberdade e da igualdade (embora hoje saibamos como foi mal interpretada essa liberdade e essa igualdade…).

O filósofo americano John Rawls afirma que a justiça é a primeira virtude das instituições sociais, tal como a verdade o é para os sistemas de pensamento.


O Direito é, por sua vez, identificado com o que é legítimo, com o que deve ser, aquele conjunto de normas sociais obrigatórias, que asseguram o equilíbrio das funções do organismo social e que são impostas, coercivamente, pelo Estado.

Mas, nos nossos dias, o Direito encontra-se em crise. E tal constitui motivo de escândalo, pois que ele é algo de sagrado, das coisas mais sagradas que o Homem pode realizar. Mas hoje, nas mãos de aprendizes de feiticeiro, encontra-se ameaçado, também devido ao desprezo dos homens face aos valores e às instituições.


Para os pensadores da Igreja (S. Tomás de Aquino, Grotius, Marsílio de Pádua) a Justiça é uma qualidade moral ou um hábito que aperfeiçoa a vontade e inclina a dar a cada um o que é seu. É uma das virtudes cardiais, porventura a mais importante. As outras são a prudência, que aperfeiçoa o intelecto e inclina o homem prudente a actuar em todas as circunstâncias de acordo com a recta razão, a perseverança, a temperança e a caridade.

Porque o Homem é um ser livre e inteligente, criado à imagem de Deus, tem uma dignidade e um valor significativamente superior ao mundo material que o rodeia.

O Homem, segundo a nossa filosofia cristã, pode amar, conhecer e adorar o seu Criador, tendo sido feito para tal fim, que só ele pode alcançar no futuro, através da vida eterna para a qual está destinado.

Deus deu-lhe capacidades e a sua liberdade por forma a que possa, livremente, trabalhar para o cumprimento do seu destino.

Ele está, por obrigação moral, obrigado a cumprir os desígnios do Criador, deve exercer as suas capacidades e conduzir a sua vida de acordo com tais desígnios.

Mas porque está sujeito a tais obrigações é investido de certos direitos, dados por Deus e direitos esses anteriores ao Estado.

Estes são os direitos naturais do Homem, sagrados como a própria origem do Homem, e como tal inalienáveis. E, como tal, objecto da virtude da Justiça.

A Justiça exige que os homens sejam deixados na plena fruição dos seus direitos.

Imensa riqueza foi, todavia, trazida ao Direito e à ideia de Justiça pelo pensamento jurídico cristão. O problema do Direito justo (ou da Justiça do Direito) “enxertou” no mesmo uma dimensão axiológica (os tais valores) contrabalançando a corrente do positivismo jurídico que despe o Direito de todo o sentido ético e moral.

Com efeito, este entendimento do Direito e da Justiça defende que destes deve ser excluída toda a qualificação que seja fundada num juízo de valor e que faça a distinção do Direito em bom e mau, justo e injusto, sem se preocupar com o ideal, sem examinar se o real corresponde ao ideal.

Tal entendimento levou à edificação do Estado Nazi na Alemanha, como sabem. Não se colocavam problemas na detenção de pessoas, na edificação de campos de concentração para um posterior extermínio de seres humanos, pois que tudo isso estava previsto na lei e, como tal, era legítimo.

Estão a ver as consequências práticas de um Direito e de uma Justiça despidas daquela axiologia de que falávamos, despidas de valores…

Por isso, poderemos dizer que a moral, como ética da consciência, surge como um refúgio quando, em momentos de crise, uma muito suspeita moral social – reflectida no Direito e numa falsa Justiça – é inadequada porque insensível ao injusto e o homem, para salvar-se, pelo menos em termos individuais, refugia-se na primeira, que reside na intimidade da sua consciência moral.


Mas, como nós somos frágeis – o tal barro de que somos feitos – por vezes ficamos indiferentes perante o nosso próprio pecado, e não nos damos conta dele.
Como sabemos, o Demónio quer fazer-nos ver que não há mal no que fazemos. Então o nosso coração vai ficando insensível à experiência do Amor.
Mas Deus, como Pai que é, sempre nos faz ver o pecado para nos dar a graça do arrependimento e nos perdoar.
E revela-nos a Sua Justiça, que nada tem a ver com a Justiça dos homens.

Com efeito, o princípio de Justiça proclamado por Jesus, pode traduzir-se em algumas ideias-força, tais como os últimos desta terra serão os primeiros no Reino de Deus, que os que aqui estão famintos lá serão saciados, que os que aqui são cegos, na Casa do pai verão o Seu Esplendor, que os que aqui choram depois cantarão de alegria.

É a premissa segundo a qual no futuro tudo será diferente, para que a Justiça seja reposta.

É assim a Justiça Divina. A ideia do Bem contém obrigatoriamente em si a ideia de Justiça. Interrogarmo-nos sobre o que é a Justiça é o mesmo que perguntarmos acerca do que é o Bem. Platão, filosófo gregou, bem tentou responder a esta questão. Mas afirmou algo de muito importante: que só o homem justo é feliz.

Porque nada ambiciona senão a Justiça e a Paz nas relações com os irmãos em Cristo.

Mas a Justiça que todos reclamamos não a encontramos aqui, no meio dos homens e muito menos nos Tribunais terrenos: nestes, apenas poderemos aceder a uma Justiça relativa. Mas a Paz sem Justiça resulta em opressão.

Pode haver, é certo, Ordem sem Justiça, mas é uma Ordem que não tem legitimidade moral para se impor.~

A Paz resulta do edifício da Justiça.

Mas para alcançar a Paz, temos de assumir uma atitude de “conversão” , a qual implica fazer Justiça para com aqueles que connosco partilham a vida.

E como? Como podemos fazer essa Justiça aos outros? Parece simples: atender verdadeiramente aos direitos daqueles que entram em contacto com a nossa vida, respeitando-os,ajudando-os, amando-os.

A Paz é assim indissociável da Justiça e esta da Paz: Justiça e Paz são um conjunto harmónico, embora frágil. Mas esse conjunto não está assim completo: é necessário introduzirmos aqui a noção do perdão.

Não é possível prescindir do perdão nas nossas relações pessoais, na nossa vida social. Na pessoa que está ao meu lado, na minha relação convosco que me escutam.


Mas quem melhor do que o nosso João Paulo II para exprimir esta ideia? Na sua 1ª Carta Encíclica “Redemptor Hominis”, ele afirmou que “em última análise, a paz reduz-se ao respeito dos direitos invioláveis do homem – a paz é obra da justiça”.

E sabemos que a Justiça por todos nós ansiada é antes a Justiça Absoluta, a qual, contudo, só pode emanar de Deus.


Dissemos que a Paz é indissociável da Justiça e esta da Paz.


Mas para que esse milagre de simbiose se dê, há que ter consciência do referido requisito do perdão. Do requisito do respeito,da entreajuda, do amor fraterno.


O Irmão Manuel Martins bem explorou a vertente da consciência, interrogando-nos com pertinência acerca de diversos temas incómodos.


Apenas direi que através do nosso pensamento, cada um de nós traz em si uma consciência viva da sua própria história.

O fluir da consciência faz-se pela memória: somos a mesma pessoa no fluir do tempo, embora com capacidade de renascermos muitas vezes das nossas próprias cinzas. Não porventura por mérito próprio, mas certamente por Graça de Deus que se apiedou da nossa condição sofredora e, a dado momento, decide resgatar-nos.

Mas reconhecemo-nos responsáveis pelo nosso próprio passado, do nosso presente, através do qual pretendemos todos construir um futuro melhor.

Através da nossa consciência distinguimos aquilo que é certo e aquilo que é errado, o que nos leva a julgar sobre a nossa própria conduta moral.


A este propósito, citaria a Constituição Pastoral “Gaudium Et Spes”, de Paulo VI, na qual se pode ler que “(…) o homem descobre uma lei que não impôs a si mesmo, mas à qual deve obedecer; essa voz, que sempre o está a chamar ao amor do bem e à fuga do mal, soa no momento oportuno, na intimidade do seu coração: faz isto, evita aquilo. O homem tem no coração uma lei escrita pelo próprio Deus: a sua dignidade está em obedecer-lje, e por ela é que será julgado”.
Essa lei não é mais que a referida consciência moral, que é definida na referida Constituição Pastoral como “ o santuário do homem, no qual se encontra a sós com Deus, cuja voz se faz ouvir na intimidade do seu ser.”

Em síntese, a Justiça por todos nós ansiada é antes a Justiça Absoluta, a qual, contudo, só pode emanar de Deus, Senhor da Paz, do Amor e da Reconciliação.

Querer instaurar a tranquilidade social, o mesmo é dizer a Justiça e a Paz, sem ter em conta a relação do homem com Deus, é condenar ao fracasso tal pretensão.


Terminaria com as palavras arrebatadoras de um Mestre que sempre me acompanha na minha actividade profissional. Deste modo também lhe faço uma singela homenagem, pois ele foi um Crente e também franciscano: Marcello Caetano.

Trago assim à colação não o político, que também não quereria ferir susceptibilidades, mas apenas o homem da Fé:

“ Louvada seja a terra, louvada seja a água – louvado tudo o que a terra cria e o que a terra dá!

Louvado o trabalho que nela se incorpora com amor e sofrimento!

Louvados os homens que do trabalho sabem fazer dádiva ao Mundo, para que o Mundo seja melhor!

E louvado seja Deus!”


Pois bem, Irmãos em Cristo: Louvado seja Deus e Sua Mãe Maria Santíssima!

E louvado seja Deus pelos seus Anjos e pelos seus Santos, como Isabel da Hungria, cuja memória hoje celebramos.


No Externato da Luz, 17 Novembro 2007. "

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domingo, 14 de novembro de 2010

A "arte" da Oração.

Atravesso um momento de crise na minha vida. Por vários motivos. Não somos máquinas, somos seres humanos frágeis. Até poderia dizer que este País se tornou nocivo para quem aqui vive, influenciando negativamente as nossas vidas, o refúgio dos nossos lares.

Mas sinto que a solução, a verdadeira, a única, reside no recuperar da paz interior através da Fé, do nosso abandono nesta, tentando elevar a nossa mente, o nosso intelecto, tantas vezes demasiado racionalista, para Deus.

Precisamos todos de rezar. Mas, curiosamente, esta é uma prática que tantas vezes falha, sobretudo por falta de tempo, por cansaço, quando chegamos a casa "estoirados" após um dia esgotante...

Como disse João Paulo II, é necessário aprender a rezar, a pôr em prática a "arte da oração".

Ora, esta "arte" ainda hoje a persigo...

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quarta-feira, 3 de novembro de 2010

A Transição Impossível - Marcello Caetano... sempre!


Hoje irei estar presente (assim o espero, pois que na "vida" nada está garantido...), e prometo incomodar!
Transição impossível? Não o creio. A ânsia da grande corporação dos interesses que hoje está no Poder não podia nem queria esperar...

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segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Dia de Todos os Santos



em todas as canções do vento,
um refrão que diz que nunca mais encontrarei
a grande porta do teu amor.
Quando aí batia,
com três pancadas secas que já não se ouviam
um pouco além,
eram outros os anos,
outros os cristais de comovida arte,
contemplados por Deus.


Há,
em todas as canções do vento,
um grito,
um lamento de anjos que partiram para sempre,
deixando amargas liras e a saudade de te ver
ainda,
num século de doces tardes.


José Agostinho Baptista, in "Agora e Na Hora da Nossa Morte", Assírio & Alvim, 1998. Com a devida vénia.
Nota: Cartaz do filme "Nada Pessoal", que nos fala da nossa solidão e do nosso fim.

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