Dies Domini

Sartre escolheu o absurdo, o nada e eu escolhi o Mistério - Jean Guitton

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Localização: Lisboa, Reino Portugal Padroeira: Nª Srª Conceição, Portugal

Monárquico e Católico. intransigente defensor do papel interventor do Estado na sociedade. Adversário dos anticlericais saudosos da I República, e de "alternativos" defensores de teses “fracturantes”. Considera que é tempo, nesta terra de Santa Maria, de quebrar as amarras do ateísmo do positivismo e do cientismo substitutivo da Religião. Monárquico, pois não aliena a ninguém as suas convicções. Aliás, Portugal construiu a sua extraordinária História à sombra da Monarquia. Admira, sem complexos, a obra de fomento do Estado Novo. Lamenta a perda do Império, tal como ocorreu.

domingo, 7 de janeiro de 2007

As fontes da nossa memória...



Na época do Natal, lembramo-nos mais daqueles que já partiram e que fizeram parte da nossa vida. Lembramo-nos do tempo inexorável, que corre e nos vai envelhecendo sem que demos por isso… Lembro-me do nosso David Mourão-Ferreira, poeta do amor, que nos deixou a sua ladainha dos póstumos Natais… “Há-de vir um Natal e será o primeiro em que se veja à mesa o meu lugar vazio”…

Mas, e como já tenho dito, enquanto não penetramos no Mistério, saibamos honrar aqueles que nos precederam na estrada que conduz à Casa do Pai. Considero um imperativo ético recordar, neste nosso mundo, aqueles que connosco partilharam a vida, e que estarão assim vivos no nosso coração, e neste nosso mundo visível…

No final de mais um Natal, no rescaldo de uma Epifania, na qual o Ocidente celebra a revelação de Jesus ao mundo pagão, um símbolo de que Cristo é o Salvador de toda a Humanidade, reflicto, de facto, no Tempo, esse verdadeiro mistério que assombra os homens pelo imenso segredo que ele contém… E vem-me à memória um escrito meu (e que fui rebuscar) acerca precisamente do Tempo, das nossas memórias, e da água que, eterna, corre nas fontes da nossa memória, sem parar, indiferente às nossas preces...


Dizia eu que na nossa infância tínhamos a nítida impressão de que o Tempo passava mais devagar. Decorria uma eternidade até o período de férias chegar; o Natal, sempre ansiosamente aguardado, era um evento que se repetia lá muito ao longe...


O homem é um ser com história, e esta é o espaço e o tempo do possível. À medida que crescemos a história inverte-se. Parece que o tempo se acelera. Quando nos damos conta já estamos prestes a ultrapassar o primeiro semestre para, logo em seguida, nos surpreendermos com as os primeiras cores natalícias. E, apesar dessa mudança de percepção, sabemos que as intermináveis horas da infância contêm os mesmos fugazes 60 minutos da fase adulta. No fundo, é a nossa vivência que muda a partir de certa idade, e não o tempo. O tempo não muda. Os movimentos dos ponteiros do relógio apenas registam a nossa passagem dentro do tempo. O tempo não passa, nós é que passamos dentro dele...

Resta-nos evocá-lo, no nosso pensamento. Os bons momentos passados, claro, pois as nossas memórias dolorosas não vale a pena trazê-las à superfície. Aliás, é impossível voltar ao passado. Afinal, que faríamos nós com ele? Não o podemos modificar, não podemos rever aqueles que nos deixaram…e, como dizia um amigo meu, Padre Franciscano, Frei Adelino Pereira (que já partiu…) no seu livro “Clamei por Vós Senhor!”, “Todo o nosso bem é este nosso instante apenas. O passado passou e o futuro ainda não veio”.

Mas é bom sonhar acordado com as paisagens que nos acariciaram a Alma, tal como essa geografia envolvente de Alvega, a terra que viu nascer a minha mãe e a minha avó materna, com os seus campos e o seu mágico Tejo muito azul, de um azul que, perdoem-me se isto é ilusão, não existe em outro rio deste Portugal, e que ainda hoje me murmura aos ouvidos uma mensagem de melancolia mas igualmente de paz, que me reporta a um outro País, mais inocente, onde Deus estava presente no coração das gentes, onde estas conheciam os valores da Família, da Amizade, da Fraternidade, quando ainda não existia uma sociedade alienada, onde todos os dias se sacrifica ao deus-mercado. Perderam-se esses valores na transição para o regime democrático. Porque será que o Homem nunca consegue conciliar o melhor de dois mundos?

Recordo uma fonte existente dentro da Quinta da Senhora da Guia, na pequena vila, para onde, com os meus 15 anos, nas longas férias de verão escapava, nas tardes calmosas, para ir ler à sombra de árvores protectoras, ouvindo a suave voz da água, que se deixava cair de uma fonte para um largo tanque, a “Poesia III” de José Gomes Ferreira, um volume que ainda o tenho, edição amarelecida de 1971. Era o Tempo em que existia o gosto pela leitura e pelas coisas do Espírito, e boas editoras que elaboravam capas maravilhosas para os seus livros.

Gostava daquela Poesia, pese embora a sua corrente neo-realista, por vezes ácida, cruel. Mas também muito humana e, por vezes, surpreendentemente mística. Permitam-me que reproduza aqui um brevíssimo poema daquele volume:

“E se, de repente, voassem dos teus olhos duas pombas azuis?
Então sim, poeta, cairia pela primeira vez no mundo o espanto da primavera completa.”

Não se admiravam os caseiros de me verem ali, sentado nos bancos de pedra, sabiamente dispostos em redor do tanque. Hoje, já não seria possível voltar a repetir a experiência. Já ali passei e encontrei, junto à ponte, à saída ou entrada, como queiram, de Alvega, os portões de ferro fechados, os mesmos que a minha avó Adélia, com o seu sorriso, abria, pois nela confiavam umas senhoras que ali viviam e que sabiam que ela tinha a chave da amizade...


"Felizes vós, os que agora chorais, porque haveis de rir" - São Lucas, 6-21.

Foto: entrada para a Quinta do Pombal - Senhora da Guia, Alvega (Abrantes, Santarém). Terra envolta em lendas. Conta-se, por exemplo, que a Buraca da Moura (fenda profunda que existe junto à EN 118) era o local onde estava escondida uma bela Moura, que saía de noite para cantar os seus tristes lamentos...

6 Comments:

Blogger ferreira said...

Só uma palavra: Belo!!!
Em 71 já lia poemas azuis, para impressionar as raparigas?!!-):Por essa altura andava eu de fraldas...
Um grande Abraço!

segunda-feira, janeiro 08, 2007  
Blogger Cabral-Mendes said...

Obrigado, Caro Amigo, pelas suas palavras.

Quanto às raparigas...hum...eu devia antes andar numa fase introspectiva...

Um grande abraço também e bom ano!

segunda-feira, janeiro 08, 2007  
Blogger Ni said...

Um dos mais bonitos posts que li ultimamente, sem dúvida.

É como um deambular, por linhas de memórias que se cruzam... e nos conduzem à certeza de que somos a nossa memória... e que tudo e todos que lá perduram são imnortais enquanto vivermos.

Lindíssimo!

Obrigada pela partilha e pelo momento único que me proporcionou.

Ni*

quinta-feira, janeiro 11, 2007  
Blogger Cabral-Mendes said...

Agradeço-lhe as suas belas (e imerecidas) palavras, Ni.

quinta-feira, janeiro 11, 2007  
Blogger Isabel Magalhães said...

Excelente momento que nos ofereceu.

Saudades do David M-F que tenho 'acarinhado' amiude no meu blogue. A 'Ladaína dos Póstumos Natais' tb lá consta embora eu seja mais de viver a vida porque o passado passou e o futuro é incerto, com excepção da sua única certeza que esperamos aconteça o mais tarde possível.

Muito grata pela citação do Frei Adelino Pereira.

Grata pela paz que me transmite com os seus posts.

Saudações 'azuis'.

segunda-feira, janeiro 15, 2007  
Blogger Cabral-Mendes said...

Obrigado, Isabel, pelas suas benévolas palavras...

segunda-feira, janeiro 15, 2007  

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