Dies Domini

Sartre escolheu o absurdo, o nada e eu escolhi o Mistério - Jean Guitton

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Localização: Lisboa, Reino Portugal Padroeira: Nª Srª Conceição, Portugal

Monárquico e Católico. intransigente defensor do papel interventor do Estado na sociedade. Adversário dos anticlericais saudosos da I República, e de "alternativos" defensores de teses “fracturantes”. Considera que é tempo, nesta terra de Santa Maria, de quebrar as amarras do ateísmo do positivismo e do cientismo substitutivo da Religião. Monárquico, pois não aliena a ninguém as suas convicções. Aliás, Portugal construiu a sua extraordinária História à sombra da Monarquia. Admira, sem complexos, a obra de fomento do Estado Novo. Lamenta a perda do Império, tal como ocorreu.

sexta-feira, 8 de setembro de 2006

Contos de Xerazade: no passamento de Naguib Mahfuz



O Anjo da Morte visitou, no passado dia 30 de Agosto, no Velho Cairo, Naguib Mahfuz, escritor egípcio aí nascido em 11 de Dezembro de 1911.

Considerado o maior cronista do Egipto contemporâneo, é o único escritor em língua árabe a receber o Prémio Nobel de Literatura (1988) em reconhecimento da sua longa trajectória como poeta e romancista.

Por vezes, após o desaparecimento de alguém é que, de modo dramático e sem possibilidade de redenção, nos damos conta da sua existência.

Aconteceu-me agora com este escritor.

A usufruir de uns poucos dias de paz à beira-mar, aqui na vilazinha do Burgau, felizmente esquecida pelas hordas que invadem o Algarve, trouxe comigo o livro daquele, intitulado “ As Noites das Mil e Uma Noites”. Tinha-o de certo modo perdido, algures nas estantes da casa de Lisboa, à espera de uma oportunidade para ser lido. Com o passamento de Mahfuz, trouxe-o para a beira-mar, e aqui o li em dois dias, sofregamente.

Hoje, ao fim do dia, ao deslizar a última folha do livro, pensei, a contemplar o mar que tanto amo, como o mundo poderia ser o Paraíso, a fonte da nossa alegria, onde poderíamos viver para sempre, na companhia daqueles que amamos, à Sombra de Deus, tendo-O ao alcance da nossa mão, aquele Mundo que Deus inicialmente criou mas que o Mal se apressou a destruir. E esse mesmo Mal está patente nas belas páginas do romance. A inveja, a arrogância, a prepotência, o desejo de poder, a ganância, a luxúria desenfreada são os motivos de queda das inúmeras personagens que percorrem as “Noites” de Mahfuz.

Personagens tentadas pelo Mal e que por ele se deixaram seduzir. Umas foram até ao fim, na sua vida desprezível. Outras, perante o precipício, recuaram, procurando, no seu último suspiro, o perdão de Deus e dos homens.

Com efeito, e segundo uma das personagens deste romance, “ As suas almas serão arrebatadas um dia quando estiverem a transbordar de pecados – disse Singam - O arrependimento pode preceder a chegada da hora da morte” (respondeu Sahloul, o Anjo da Morte que percorre estas crónicas de Mahfuz).

Mas esta reflexão acerca da natureza do Homem é feita através de uma forte e bela poesia, da construção de sólidas imagens que nos transportam para um outro mundo que nada tem a ver com o nosso (decadente) Ocidente. E pensei, contemplando a beleza do mar, que todos os Homens poderiam entender-se, pois creio que na diversidade está a riqueza deste Mundo.

Todavia, no ponto dramático da História do Homem em que estamos, creio bem que o entendimento a nível de Países, Nações, de Povos, é praticamente impossível. Mas acredito que, a um nível pessoal, é possível a paz a compreensão e o amor entre homens de civilizações e credos diferentes.

Estas páginas de Mahfuz apenas poderiam ser construídas por uma Alma nascida noutra civilização, com outros valores que não os deste velho Ocidente que, pela sua indiferença religiosa e relativismo moral, me deixa triste e envergonhado.

Pondo de lado essa anomalia chamada “fundamentalismo islâmico”, que aliás foi combatida por Mahfuz, tudo teríamos a ganhar com a partilha de outras vivências e outras civilizações, que aliás já vêm descritas no Velho Testamento…

Mas o Homem, dito “moderno”, em nada acredita senão no deus-dinheiro, e nas inutilidades que com este pode adquirir, alienando-se quotidianamente e vivendo de ilusões. Deus deve estar triste com o rumo que o Seu Mundo tomou…

Para nos consolarmos, resta-nos páginas de indizível beleza, deixadas por homens desprendidos de tudo, excepto do essencial: do Trabalho honesto e dedicado, da Cultura, do Amor, da Beleza, da Fé. Como Naguib Mahfuz



Obras como esta, levam-nos a concordar que o Amor, nas suas diferentes expressões, é a única coisa que importa e que pode redimir o Homem: aqui deixo este excerto de Mahfuz, em jeito de conclusão:

“ A brisa primaveril acariciava-os e levava-lhes as fragrâncias do céu azul. A sua felicidade fê-los esquecer o tormento e a confusão. A paz cobriu a terra e, com um movimento tão natural como o canto das aves, deram a mão”.



2 Comments:

Blogger Daniela said...

Olá eu sou uma aluna do 11º ano e vou apresentar o livro "As Noites das Mil e Uma Noites" na disciplina de português. O problema é que não percebi o final da obra e não encontro quem me consiga ajudar. Será que o senhor poderia conversar comigo através do hotmail para alguns estclarecimentos? Deixo o meu email caso tenha alguma disponiblidade: danibritomelo@hotmail.com

quinta-feira, abril 10, 2008  
Blogger Cabral-Mendes said...

aw@gmail.comCara Amiga leitora:

Recebi, através do meu “e-mail”, a sua questão.

Obrigado por ter passado a vista no meu escrevinhar…

Já li há cerca de dois anos este livro quer refere. Um deslumbramento!

“Obrigou-me” a percorrê-lo rapidamente, e assim de “súbito”, o que se me oferece dizer é o seguinte:


Shahriar, o sultão, apesar de Xerazade, não aperfeiçoou a sua Alma, no sentido do Bem e da Justiça.

Então, o “destino” fá-lo passar por diversas provações.

Por via delas, reconheceu, afinal, os seus erros, e tudo abandonou: o seu trono, a mulher e o filho.

Como purificar-se senão através do sofrimento? Este é o único caminho para a redenção pessoal.

Nesse percurso, encontrou outros sofredores, como ele, junto a uma “língua verde junto ao rio”…

A cena será equivalente ao Purgatório da fé católica, em que os homens sofrem pelas suas faltas, tentando purificar-se das mesmas.

Mas, curiosamente, ele, que tinha abandonado uma vida faustosa, “vestido com um manto e com um pau na mão”, tendo-se assim entregue completamente ao destino”, acaba por alcançar a felicidade junto da misteriosa Rainha, conseguindo, inexplicavelmente, aquilo que os outros sofredores à sua volta não conseguiam: entrar no interior do rochedo. Aí encontrou como que uma cidade celestial, que poderemos comparar à Jerusalém Celeste da fé católica.

Mas, tal como no Antigo Testamento, em que Adão e Eva comeram do fruto proibido, assim ele também abriu a “pequena porta de ouro enfeitada de diamantes”, e que tinha a inscrição “Não te aproximes desta porta”.

Quando soube desta proibição, sentiu crescer nele uma inquietação, o desejo de conhecer o que estaria para lá da mesma.

E sucumbiu à tentação, apesar dos avisos da Rainha. Sucumbiu, afinal, ao proibido, ao pecado.

Foi a sua perdição: passou para o “deserto, a noite, a Lua (…) a rocha, os homens e os contínuos lamentos”: voltou a estar de novo na Terra dos tormentos, ou seja, este mundo, que mais não é que um vale de lágrimas: perdeu a imortalidade, a beleza, a felicidade.




Creio que inúmeras interpretações poderão ser feitas, pois a riqueza de um romance é precisamente a possibilidade dada a cada leitor de percorrer diversos caminhos, fazer várias leituras, consoante a sua visão do mundo e das suas crenças.

Estas pobres linhas valem o que valem, cara leitora.

Desejo-lhe êxito na sua apresentação.

Dê notícias!

sexta-feira, abril 11, 2008  

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