Memórias...

Cai uma chuva miudinha, persistente. Esta, aliada a uma neblina, faz com que a melancolia cresça no meu coração.
O comboio segue a grande velocidade, atravessando indiferente as paisagens da minha meninice, atribulada, mas crente num futuro melhor.
Tão sofisticado é o comboio que nunca imaginei na minha infância poder um dia viajar com tal conforto e uma panóplia de tecnologia que hoje nos “ajudam” no nosso quotidiano.
Vou a Coimbra e, nesta parte da linha que ainda pertence à Beira-Baixa, vou paralelo ao rio Tejo, o rio que amei na minha meninice, e do qual guardo as memórias da sua música suave, da sua cor e do seu cheiro inconfundível.
Guardo no meu coração as memórias de todos aqueles que já partiram, e muitos prematuramente.
Em Coimbra a noite cai e não há luz que nos guie os passos. O Mondego é escuro, demasiado escuro para o meu gosto, algo ameaçador.
O Tejo não. Mesmo à noite, irradia a luz das estrelas, porventura as estrelas que reflectem a luz daqueles que nos amaram e já partiram. Também daqueles que certamente por culpa nossa não soubemos compreender a tempo, e que também já partiram. E que não pudemos dizer que os amávamos tal como eram, com a suas fraquezas, as suas insuficiências, que serão certamente também as nossas, porventura travestidas de outros traços.
Por isso sei hoje o que vale o amor e a amizade. Por muito ter sofrido, por muitas angústias sentidas, muitas lágrimas derramadas.
Por isso sei como é bom estarmos rodeados por todos aqueles que fazem parte da nossa história.
E sinto uma grande ternura por todos aqueles que ainda têm os seus pais junto de si. Como o meu (vero) amigo Coutinho Ribeiro. Pai extremoso, homem com H grande, determinado, fero, mas também sensível. Que também sabe o que vale a amizade.
Enquanto corre veloz a paisagem pela janela do comboio, batida pela chuva, penso em tudo isto. Nos meus pais, nos meus avós que já partiram, na história prematuramente interrompida. No meu amor, nos meus amigos. Sem eles não seria suportável a traição a inveja a maledicência que nos cerca no dia-a-dia.
Por tudo isto, é bom escrevermos num diário ou num “blog” (e o que é um blog senão o repositório dos nossos sonhos, desejos, angústias, catarses?).
Todos aqueles que sofreram ou sofrem, sabem bem que, mesmo à distância, é bom termos alguém que nos pode acolher numa aflição. Uma palavra amiga, uma porta que se abre, uma cama sempre pronta para acolher o corpo cansado e a alma dorida.
A minha porta está aberta.
Já bastou tê-la fechada num outro tempo e noutro espaço.
Nota: Foto tirada por telemóvel. O Rio Tejo e a ponte de Santarém.
Etiquetas: Amor e Angústias, Da Amizade
8 Comments:
o Natal é o cenário ideal para este tipo de melancolia..
abraço amigo
Até andava já precupado com a sua ausência :-) Mas vejo que está tudo bem. É bom. Abraço
Vem mesmo a "calhar"...
Bjs Júlia.
Olá amigo CR!
Não tenho tido grande tempo. com pena minha, para ler os meus amigos.
Ontem fui a Coimbra e eproveitei para, no ",Alfa" tentar escrever no pequeno portátil o que senti de repente na alma. Mas não tive tempo para escrever mais.
Quero ver se hoje, sábado, consigo acabar o texto, o qual, aliás, queria inserir no seu blog, conforme notificação sua... ahahah...
Abraço apertado!
" (..)a luz daqueles que nos amaram e já partiram. Também daqueles que certamente por culpa nossa não soubemos compreender a tempo, e que também já partiram. E que não pudemos dizer que os amávamos tal como eram, com a suas fraquezas, as suas insuficiências, que serão certamente também as nossas, porventura travestidas de outros traços.
Por isso sei hoje o que vale o amor e a amizade. "
Tão bom Lê-lo CM Acabei de postar um texto que também gostava que lêsse.
A Amizade é realmente uma preciosidade, uma terapia , um bem a cultivar.
Bj grande
Beijo imenso, Cleo!
"A minha porta está aberta.
Já bastou tê-la fechada num outro tempo e noutro espaço. "
Então faça o favor de ir escrever o texto para o JC.
ai ai ai ai
Ooops...
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