Dies Domini

Sartre escolheu o absurdo, o nada e eu escolhi o Mistério - Jean Guitton

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Localização: Lisboa, Reino Portugal Padroeira: Nª Srª Conceição, Portugal

Monárquico e Católico. intransigente defensor do papel interventor do Estado na sociedade. Adversário dos anticlericais saudosos da I República, e de "alternativos" defensores de teses “fracturantes”. Considera que é tempo, nesta terra de Santa Maria, de quebrar as amarras do ateísmo do positivismo e do cientismo substitutivo da Religião. Monárquico, pois não aliena a ninguém as suas convicções. Aliás, Portugal construiu a sua extraordinária História à sombra da Monarquia. Admira, sem complexos, a obra de fomento do Estado Novo. Lamenta a perda do Império, tal como ocorreu.

segunda-feira, 13 de março de 2006

O MEU SINDICATO, A GARE MARÍTIMA DA ROCHA CONDE DE ÓBIDOS, OS PAINÉIS DE ALMADA NEGREIROS E A TERNURA DAS MEMÓRIAS NA 3ª IDADE

Acredito na solidariedade. Nem que ela seja praticada apenas por duas ou três pessoas. Aliás, Jesus disse: onde dois ou três se reunirem em Meu Nome, aí estarei presente…

É como nós aqui: mesmo que não nos conheçamos fisicamente, creio que nos conhecemos num estádio mais importante e superior: o plano dos afectos e do espiritual.

Assim, pertenço por convicção, a um sindicato – o Sindicato dos Quadros Técnicos do Estado (aquele do Dr. Picanço, estão a ver?...está bem, podem dizer que é um sindicato elitista…são os Quadros da Administração Pública, senhores! Aqueles que precisamente habilitam a decisão dos senhores governantes…) – um sindicato inteligente, com muitas iniciativas respeitantes à causa da Administração Pública, que se preocupa em dar formação aos seus associados, ao longo do ano. Formação na área jurídica, na informática, gestão e administração, enfim, um mundo… e também promove os denominados “Passeios do STE” – iniciativas culturais que juntam algumas pessoas que cultivam o gosto, que vai rareando, de visitar os espaços sagrados da cultura, como os museus, e as obras, por aí dispersas, de arquitectos por exemplo, que, com o seu génio, muito contribuíram nos anos “de chumbo” para o redesenhar do horizonte da minha Lisboa. Lisboa hoje cercada de obras que nos oprimem pela sua fealdade e triste banalidade.

Há dias, recebendo a notícia de que nesta sexta-feira, ao fim da tarde, se iria realizar um “passeio guiado” à Gare Marítima de Alcântara e da Rocha Conde de Óbidos, a fim de contemplar essa obra fabulosa de Almada Negreiros, ali posta desde os idos de 40, não hesitei. Apesar de detestar sair mais cedo do meu trabalho (sou muito “picuinhas”…gosto de deixar tudo pronto para…a manhã seguinte…e de saborear o fim da tarde no meu gabinete, dando umas “oftálmicas” como diria o nosso bom Marcelo Ribeiro, ao azul do Céu, que desce suavemente sobre a “minha” tão bela Igreja de São João de Deus…cercada por um bairro pacato (coisa rara em Lisboa e arredores) e um lindo jardim, onde as crianças podem brincar em segurança – aqui a PSP é omnipresente – et voilá! Uma arquitectura profundamente humana, que “compreende” o Homem na sua ânsia de paz e de espiritualidade. Hoje, perdeu-se essa sabedoria…mas dizia eu que apesar de não gostar de abandonar o barco mais cedo, aí fui eu em demanda da beira-rio…

Como fui no meu carro, que o tenho sempre por perto - sem ele sinto-me perdido - (“mexo-me” bem na cidade, aliás gosto imenso de conduzir em ambiente urbano – Lisboa e Porto são duas cidades nas quais me sinto como peixe na água…) procurei saber onde ali, à beira-rio, o poderia deixar; pois que a zona está (é o costume) com umas obrazitas…pois bem: ninguém sabia que coisa era aquela da Rocha Conde de Óbidos, olhando para mim até com um ar desconfiado…mais um excêntrico terão pensado! E com o edifício ali em frente!

Um desses “rapazes” até me disse: Ah! mas o senhor quer os barcos para a outra margem”…

Não, senhor, este rapaz quer é a Gare Marítima donde partiu tanta malta para o Ultramar!!! É a Gare donde partiam os nossos soldados da guerra colonial!


Mais espantado ficou… Bem, este nem ouviu falar da guerra (que nos foi imposta…)

Desisti. Deixei ali o carro junto a um “roulotte” de “comes e bebes” orientei-me e lá me encaminhei para a (ben)dita Gare.

Esta foi construída, nos anos 40, bem como a de Alcântara, pelo arquitecto Pardal Monteiro ( já não há arquitectos assim…nem os sizas…). Pretendia-se acudir às “exigências” da navegação estrangeira de passageiros que ali vinham aportar ao Tejo. O futuro diria que o porto de Lisboa transformar-se-ia no verdadeiro cais de toda a Europa…

Avistei um grupinho de senhoras muito bem “postas”, bem seguras, creio bem, nos seus 70 e até mais anos certamente.
Homens, apenas três.

Tive um “choque”: ali estavam as “minhas” colegas de outros tempos, de outras “guerras” de outras paisagens que só elas viveram sentiram e hoje conhecem. As minhas colegas “ doutorinhas” que viveram sob outra Administração Pública, com outra orgânica, outras leis. Que tiveram angústias e trataram, o melhor que souberam, dos problemas de então. Tal como eu hoje o faço. Num tempo tão cinzento!...

Ficaram radiantes de termos ali um grupinho bem composto; a nossa guia tinha idade para ser minha filha: certamente que deveria ter uns vinte e poucos anos, porque a tratavam por “doutora”…caso contrário dava-lhe aí uns 17 ou 18 anos…

Esta história da idade dá-me que pensar. Tenho muita ternura por essas senhoras, já com muita idade, com um ar muito digno, tão bem “conversadas”, depositárias de uma memória que nunca deveria perder-se…fico sempre tão triste quando penso nisto…Já foram jovens, já tiveram os seus sonhos, as suas aventuras, já desempenharam um papel na sociedade e hoje…certamente não possuem interlocutor…vivem sozinhas muitas delas, mitigando a sua solidão com estes pequeninos e breves instantes… Alguém disse que o excesso de clarividência é a-social…na verdade…

Achei graça à nossa guia falar dos painéis, da conjuntura em que os mesmos foram criados, e referindo o “Dr. Salazar” como alguém que gostava de tudo “muito organizado”. Daí terem construído essa verdadeira “fronteira marítima” com grande dignidade, pois tratava-se da porta de entrada do País…

Relativamente aos painéis, eles encontram-se no 2º piso das gares de Alcântara e da Rocha Conde de Óbidos. Representam o Tejo (para mim, o Rio português mais azul…) as fainas ali desenvolvidas e cenas portuárias. As varinas, descalças e com os seus corpos muito fortes…os passeios aos Domingos, da burguesia e do povo muito muito simples…

Em Alcântara estão os painéis alusivos à lenda da Nau Catrineta…

É uma visita obrigatória, meus amigos…

Doeu-me encontrar tudo desactivado…Que não, que na Primavera, aí para Abril já se nota um grande movimento de navios, muitos turistas…não percebo: então a navegação marítima comercial não tinha praticamente terminado? Que não… Ora, ainda bem!

É que não posso entender que tudo neste País esteja ao abandono, paralisado, após uma época em que tudo esteve organizado, bem cuidado: por exemplo, os espaços públicos estavam bem tratados, com gosto, com esmero. Lisboa era uma cidade linda; hoje, tenho de dar razão ao nosso Coutinho Ribeiro: é uma cidade agredida, pese embora o esforço levado a cabo para recuperar a zona ribeirinha…mas não é suficiente…falta a vida a pulsar! E a vida não se pode resumir aos bares abertos à noite…

Mas actualmente não existe sequer interesse, quanto mais gosto, em preservar aquilo que de bem feito realizou o Estado Novo. Não entendo: então, não se pode conservar a sabedoria dos antigos? Não se pode fazer uma aliança entre as virtudes do passado e a nova visão do futuro? É tudo para destruir?


Aquelas minhas “colegas” recordaram alguns pormenores das suas vidas, respeitantes àquele lugar. Duas delas ainda se lembravam da Exposição do Mundo Português! De 1940!!

Esta, ali posta em frente a Belém, teve, já agora digo….como Comissário-Geral Augusto de Castro, Comissário-Adjunto Sá e Melo, Arquitecto-Chefe Cottinelli Telmo. A inauguração foi feita pelo Chefe de Estado Óscar Carmona, acompanhado pelo Presidente do Concelho Oliveira Salazar e pelo Ministro das Obras Públicas, o genial Duarte Pacheco.

O interior de cada pavilhão era um repositório ilustrado da História de Portugal, desde a fundação da nacionalidade.

Pena que hoje seja um crime amar-se a nossa História…

Pena foi também aquele nosso pequeno grupo, com tantas memórias, não ter podido confraternizar mais tempo, devido à ausência de um cafezinho que por ali existisse…


Domingo à noite ( muito noite – 2H00!), com a melancolia a subir por mim acima…a querer engolir-me…Vá, vamos repousar esta cabeça no doce da almofada, que a minha ternura espera…

3 Comments:

Blogger Isabel Magalhães said...

Muito interessante e completo este seu 'post'. E pertinente!

Apenas uma ressalva, se me permite; os recém-criados espaços ribeirinhos do Cais do Sodré a Algés, a que chamo a devolução do Tejo à cidade de Lisboa, são mais do que espaços nocturnos. São excelentes espaços de lazer, de desporto e de contemplação, com grande
afluência nas quatro estações.

Sei-o por constatação. Moro perto. :)

quinta-feira, março 23, 2006  
Blogger Cabral-Mendes said...

Obrigado pela sua "dica". Hei-de verificar...em vindo as noites quentes de verão...

quarta-feira, abril 05, 2006  
Blogger Isabel Magalhães said...

O fim da tarde é tão agradável à beira Tejo...!

Saudações "azulinhas". :)

domingo, abril 23, 2006  

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